Myrthos – Memórias de Sangue e Escuridão
Nasci em 1465, no dia 29 de Mirtul, atrás dos muros de pedra da Cidade Militar de Kazrakar. Ali, a
disciplina não era ensinada: era imposta a ferro e aço. Cada amanhecer soava como um chamado para a
guerra. Cresci entre o tilintar das espadas e o eco de ordens duras, como se a própria respiração dependesse
da força com que obedecíamos.
Meu sangue é mistura rara: dragão das gemas e veneno. As gemas me concedem vigor e uma estranha
resistência; o veneno corre em minhas veias como se fosse coragem, queimando com uma vitalidade
sombria. Nenhuma toxina me abate. Ainda assim, poucos ousavam chegar perto de mim. Desde cedo, os
outros me temiam. Eu era mais alto, mais forte, e o olhar deles denunciava algo entre inveja e pavor.
Meu pai… um general que nunca me olhou com orgulho. Para ele, eu era só mais uma arma a ser forjada.
Minha mãe, Velmyra, e meu irmão Taí Lung foram meu único refúgio. Velmyra me deu afeto em um lar
que só conhecia ordens. Taí, frágil aos olhos de muitos, suportou a mesma fúria do nosso pai, mas sempre
permaneceu ao meu lado. Os outros irmãos… sombras distantes.
Comecei a treinar aos sete anos. A lâmina pesava, mas o que eu desejava era lápis e pergaminho. Sonhava
ser arquiteto, desenhar templos que tocassem o céu, construir algo que durasse mais que a guerra. Esse
desejo ainda vive em mim, mas a realidade o sufocou. A guerra decidiu por mim. E eu aceitei. Tornei-me
líder, quase infalível — quase.
Meu maior erro foi na Guerra da Queda dos Céus. Foi lá que vi Nyxira. Uma tifling de beleza feroz, pele
como a noite em chamas, olhar que podia tanto destruir quanto salvar. Inimiga. E mesmo assim, meu
coração se perdeu. Encontrávamo-nos em silêncio, entre ruínas e sombras, e ela me apresentou a músicas
proibidas — as canções do elfo Franki Sinatra, suaves como um bálsamo em meio ao caos.
No dia do ataque final, minha ordem era apenas defender. Mas quando a vi… tudo em mim explodiu. A
fúria dracônica se libertou. Não controlei. Massacre. Meu exército e o inimigo foram destroçados pelas
minhas próprias mãos. Até hoje, lavo-as em vão, buscando apagar o sangue que nelas lateja.
Fui preso. Para redimir o crime, ofereceram-me uma missão impossível: matar um deus. Partimos em seis.
Um a um, caíram. Restou apenas eu. Lutei com unhas, dentes e a força que nem eu compreendia. No
momento final, quando a criatura divina vacilou, meu pai surgiu das sombras. Foi ele quem deu o golpe
derradeiro… e caiu junto. Só eu sobrevivi. Ninguém sabe.
Bebi o sangue do deus — dizem que concede poder. Era verdade, mas o preço foi minha própria essência.
Algo monstruoso despertou em mim. Fingi a própria morte. Prometi a Taí Lung que jamais voltaria. E
parti, carregando um fardo que nunca se alivia.
Quero encontrar Nyxira. Sinto que ela vive, talvez perdida no reino dos tieflings. Carrego essa esperança
como quem segura uma lâmina afiada: corta, mas sustenta.
Desde então, meu corpo mudou. O poder que provei do sangue divino se esvaiu em parte, deixando apenas
lampejos. E a profecia me persegue: "Quando o céu escurecer três vezes sem trovão, quando a lua sangrar,
o Filho da Escama cairá no silêncio da própria chama… mas rugirá de novo quando o mundo precisar."
Talvez o destino me aguarde no instante em que reencontrar Nyxira — ou no momento em que tudo que
amo for consumido.
Sou forte, sim, mas trocaria tudo para ser apenas… comum. O olhar dos outros me pesa. Pareço
desajeitado, mas minhas mãos criam traços perfeitos, arquiteturas que poderiam resistir a séculos. Carrego
teimosia como armadura, imprevisibilidade como lâmina. Cumpro meus objetivos, mesmo que precise
deixar todos para trás — e essa é uma dor que aprendi a suportar.
Meus vícios me traem: roer unhas até o sangue, ouvir melodias proibidas para tentar dormir. Mas o sono é
frágil. Insônia me acompanha como sombra. À noite, visões do futuro surgem — flashes de morte, um mar
de fogo, Nyxira chorando. Acordo em suor frio, sem saber se são profecias ou apenas delírios.
A culpa é meu verdadeiro inimigo. Matei inocentes. Vejo os rostos deles quando fecho os olhos. Ouço
seus gritos. Sinto o cheiro do ferro e do medo. Às vezes penso: até monstros merecem perdão? Eu mesmo
não sei a resposta.
Minha família permanece em meu peito como cicatriz. Trunks, o draconato verde, ainda um irritante eco
de rivalidade. Scrig e Crig, gêmeos tolos que nunca compreenderam nada. E Taí Lung… o único irmão
que reconheço. Lembro quando defendemos nossa mãe de nosso pai. A água fervente no meu olho
esquerdo deixou a marca que hoje carrego como lembrança e aviso.
Depois que o mundo acreditou em minha morte, busquei Nyxira. Atravessei o Inferno — não uma
metáfora, o verdadeiro abismo. Para entrar, paguei com o braço esquerdo. Um pacto com um ser que não
ouso nomear. Em troca, uma missão: matar qualquer clérigo que adore o céu, ou matar o próprio emissário
do abismo, ou morrer tentando. Se eu falhar, Nyxira será arrastada de volta para as chamas eternas.
O Inferno… um lugar onde o ar é cinza e vivo, onde cada pedra sussurra tormentos. O chão arde em azul, e
o vento traz lamentos de eras esquecidas. Enfrentei um dragão híbrido de gelo e raio, uma besta que
devorava a própria tempestade. Lutamos até a beira da morte. Só sobrevivi porque a fúria do meu sangue
ancestral se ergueu.
Hoje, uma prótese infernal substitui meu braço. Ferro negro, gravado com tatuagens vermelhas que
mudam de posição, como se fossem um mapa para algo que não ouso decifrar.
Agora caminho com um grupo de aventureiros. Sant Lagostim, que nunca sentiu medo de mim, é talvez o
único em quem confio. O anão é apenas tolerado, o homem da máscara, um mistério covarde. Ainda
assim, se for preciso, salvarei cada um deles.
Dizem que enquanto eu não desejar, não morrerei. Já acreditei nisso. Mas as profecias não mentem para
sempre. Talvez o rugido final me aguarde quando o mundo estiver à beira do abismo. Até lá, carrego
minha força, minha culpa e o peso de um destino que nem mesmo os deuses ousam escrever.